Conclusão unânime que sai do 34º Encontro Nacional de MGF:

É urgente encontrar estratégias inteligentes para reter MF em contextos de prática isolada

  • 18 de Março de 2017

Terminou em grande o 34º Encontro Nacional, após uma discussão singular sobre as condições de exercício dos médicos de família (MF) em contexto isolado, em parte fomentada pelo filme francês “Médico de Província”, exibido em antestreia no evento. Nesta discussão participaram Armando Brito de Sá (USF Conde Saúde), Tiago Maricoto (vogal da Direção da APMGF) e Sara Marques (a exercer numa unidade de saúde de Tondela). Em jeito de comentário a uma cena da longa-metragem, na qual um conjunto de personagens se procura organizar e romper com um paradigma assistencial de longa data, com vista a prestar apoio médico e social a um idoso que deseja morrer em casa, num local isolado, Sara Marques transpôs o problema para a realidade portuguesa atual: “temos de saber promover a mudança e fazer algo para tornar as estruturas mais atrativas, mesmo que possamos ir contra os Velhos do Restelo. Desde logo, se existir formação nas unidades de saúde isoladas, mais facilmente colegas estarão disponíveis para se radicarem nestas regiões”.

Já Armando Brito de Sá não tem dúvidas de que “a interioridade e a ruralidade estão dentro da cabeça das pessoas”, mais do que no mapa, isto porque muitos dos locais de trabalho que são hoje olhados de soslaio oferecem uma excelente qualidade de vida aos médicos de família que decidam para lá mudar-se. Por outro lado, o médico de família da USF Conde Saúde não acredita que a baixa capacidade de atração de determinadas regiões possa ser compensada ou anulada apenas com mais-valias remuneratórias: “os políticos que esqueçam a questão dos incentivos para a interioridade. Podem pagar quatro vezes mais que as pessoas continuarão a não estar interessadas, na medida em que para um jovem casal o mais relevante, à partida, é não abandonar o bulício da grande metrópole. Vai ser preciso encontrar outras estratégias, que podem passar por algo como aquilo que já foi concretizado em alguns países do Norte da Europa, onde médicos de família que exercem durante um determinado período de tempo em regiões isoladas têm garantida a oportunidade de depois regressarem a uma unidade de saúde urbana e central, onde os espera uma vaga”.


     


Este debate – focado nos contextos de prática médica isolada e nas vias futuras de aumentar o grau de atração destas paragens para os médicos de família – foi o culminar de uma viagem de três dias, durante a qual se sondaram os caminhos futuros da especialidade, dos cuidados de saúde primários em Portugal, das dificuldades e oportunidades que se apresentarão aos MF nos próximos anos.
 
Pensar o futuro, em diversas latitudes

Um pouco antes, realizou-se o último dos três debates “Acolher o futuro…”, virado para o conceito de globalidade e para as diferentes realidades do Brasil, de Cabo Verde e de Portugal, países cujas populações apresentam até certo ponto necessidades em saúde similares, mas que se debatem com prioridades distintas em termos de Saúde Pública. Daniel Soranz, especialista de Saúde Publica brasileiro, retratou a desigualdade que ainda se vive naquele país-irmão, que se reflete na carga de doença e no acesso a cuidados de saúde. Sublinhou também o facto de serem os países pobres que tendencialmente “mais investem na complexidade e indústria hospitalar”, sendo portanto essencial que todos procurem seguir o exemplo de sociedades mais desenvolvidas, que concentram o seu investimento em serviços de saúde próximos da população, altamente eficazes e de baixa complexidade tecnológica.

Já José Rui Moreira, delegado de Saúde Pública na Ilha do Sal (Cabo Verde), focou a sua intervenção no problema do alcoolismo, enquanto desafio de futuro para o sistema de saúde e para a sociedade cabo-verdiana. Num recente estudo realizado na Ilha do Sal, com 172 mulheres, verificou-se que apenas 8,6% são consumidoras abusivas de álcool, porém no lote de consumidoras existe um padrão preocupante: “18% destas mulheres revelaram um padrão de «binge drinking», o que significa que são bebedoras que nos merecem atenção, porque são as que mais facilmente caem em situações de acidentes, violência, etc.”.


     


No que respeita à conjuntura portuguesa, o presidente da APMGF Rui Nogueira preferiu destacar a circunstância de Portugal em breve se tornar a nação mais envelhecida da Europa “o que forçará à adaptação da nossa prestação de cuidados e da nossa prática médica”. O dirigente da APMGF acredita também que no futuro as múltiplas especialidades vão ter de dialogar mais (através das suas associações representativas) e que nos CSP ter-se-á de dar mais ênfase à governação clínica: “não podemos ter os colegas a fazer uma «perninha» nos conselhos clínicos, como tem sucedido até agora em muitos casos”.

O último dia do 34º EN foi também palco para a revelação das 8 evidências clínicas mais relevantes para a MGF em 2016, pelo Prof. António Vaz Carneiro e os seus colaboradores do Centro de Estudos de Medicina Baseada na Evidência – CEMBE – João Bandovas, Raquel Alves e Juan Rachadell. Nota, sobretudo, para as evidências em torno dos suplementos de cálcio, muito em voga na atualidade, que segundo o grupo do CEMBE não apresentam provas de evitar fraturas na população idosa em geral.

APMGF e Pfizer colaboram para desenvolver plataforma de e-learning

O fecho do Encontro Nacional englobou um ato simbólico que pode representar muito a breve trecho, no que respeita à oferta formativa que a Associação faculta aos seus associados. Assim, responsáveis da APMGF e da Pfizer assinaram um protocolo cujo objetivo último é aprofundar a cooperação entre as duas partes, com o intuito de criar uma plataforma de e-learning abrangente e útil ao nível da formação médica continua. “Este é um exemplo claro de uma excelente parceria entre a indústria farmacêutica e uma organização representativa de médicos, porque é útil e também transparente, como sempre fazemos questão que seja, no caso da APMGF”, assegurou Rui Nogueira após a assinatura do acordo.

Entretanto, o quadro criado pelo pintor Telmo Alcobia, durante os três dias do evento, foi oferecido pela Grünenthal à APMGF, um testemunho de que a dor, tantas vezes alvo dos esforços clínicos, no sentido de a debelar ou aliviar, também pode ser elevada ao estado de arte.

Durante a cerimónia de encerramento do 34º Encontro Nacional foi possível ainda ouvir as palavras inspiradoras e sábias do presidente honorário da Associação, Mário Moura, que se dirigiu em especial aos mais novos e lhes pediu que investissem na componente relacional da Medicina, indispensável caso se queiram transformar em bons médicos de família.

Por último, realce para o sorteio de várias inscrições no 21º Congresso Nacional, que a APMGF organizará em Vila Real, de 29 de setembro a 1 de outubro próximo, que contemplou dez participantes em workshop desenvolvidos no 34º Encontro Nacional e dois novos membros da Rede Médicos Sentinela.

Veja aqui os vídeos do 3º dia do Encontro Nacional